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Jangada de S. Torpes

Jangada de S. Torpes

A mais singular manifestação etnográfica do concelho de Sines é a Jangada de São Torpes, uma embarcação, provavelmente de origem fenícia, usada até há muito pouco tempo com regularidade naquela praia situada entre Sines e Porto Covo.

Pescadores-cabaneiros

Até meados da década de oitenta, moram junto das praias de São Torpes os pescadores-cabaneiros. Vivem do marisco que vendem aos restaurantes e das hortas que têm no campo, a algumas centenas de metros.

Em "A Jangada de São Torpes", Vítor Torres Mendonça diz que podem ser descendentes dos comerciantes – gregos, fenícios, púnicos – que fundaram colónias a sul do cabo de Sines. E dos servos que trabalhavam no (lendário) latifúndio de Santa Celarina (ver Lenda de S. Torpes), que incluía esta praia.

Modelo egípcio

O autor identifica a "jangada" de São Torpes com o modelo do Nilo, feito de papiro, que os Fenícios adotam e usam nas ribeiras e lagoas perto das praias mediterrânicas onde se estabelecem.

A Sardenha e Marrocos, por exemplo, há embarcações idênticas à de Sines.

Mendonça defende que os primeiros barcos, feitos em papiro, são usados nas lagoas da região e nas ribeiras de Morgavel e Junqueira (que eram muito mais caudalosas do que hoje).

Quando o pergaminho substitui o papiro como suporte da escrita, o cultivo da planta decai e a cana é matéria-prima de recurso mais acessível.

Cana

A cana adapta-se perfeitamente ao uso do pequeno barco. É leve e a sua fibra não retém água – permite que um homem sozinho a carregue às costas. É muito flutuante – as câmaras-de-ar suportam, com facilidade, o peso de um pescador, que nela se coloca de pé. Exige alguns cuidados de conservação – no verão, para que o calor não provoque fissuras, o pescador enterra a jangada na praia, mal chega da pescaria.

Das ribeiras para o mar

À medida que as ribeiras emagrecem (a partir do século XIV), os pescadores fluviais passam definitivamente para o mar. Mas não modificam a embarcação, o que restringe a sua navegabilidade aos dias de mar muito calmo.

Esperam pela maré baixa. Usam a gaiola de vime ("covas" ou "coviens") e hoje, especialmente, a nassa – feita de ferro e rede de plástico – para apanhar marisco e peixe das rochas.

Apesar de residual, é conhecido ainda hoje o uso da "jangada" em pescarias ocasionais.