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Lendas

Lenda da Floração da Aguilhada (Vasco da Gama)

O Sol punha-se no cabo de Sines. Depois de um dia de trabalho, os camponeses preparavam-se para uma noite de baile.

Vasco da Gama passeava pela eira no Monte Chãos, subúrbio agrícola de Sines. A gente conversava, animada pelo início do descanso.

Um jovem dirige-se ao Gama e pergunta-lhe, com uma mistura de vénia e ironia:

"Vai, então, Vossa Mercê, descobrir as Índias?"

Sentindo dúvida nas palavras do camponês, Vasco da Gama, irritado, pega numa vara e exclama:

"É tão certo eu descobrir a Índia como esta aguilhada florir!"

A história diz que Vasco chegou à Índia. A lenda diz que a aguilhada floriu.

Lenda de Nossa Senhora das Salas

Dona Vetaça (ou Betaça) Lescaris, princesa grega, vem para Portugal para servir como dama de honor de Dona Isabel, que ia casar com o rei Dom Dinis. Entrando em águas portuguesas, o seu barco é recebido por uma tempestade. No desespero, Betaça promete construir uma capela em louvor da Virgem no primeiro porto que encontrar. E que o castelo mais próximo fica com a relíquia do Santo Lenho que traz consigo.

Dona Vetaça salva-se e as promessas são cumpridas. Sines, o porto, fica com a capela (construção primitiva da Igreja de Nossa Senhora das Salas). Santiago do Cacém, de cujo termo Vetaça será dona, fica com o fragmento da Cruz de Cristo.

A primeira ermida é uma construção austera, um pouco mais a leste do que a atual, sobre a nascente que hoje alimenta a Fonte da Dona Betaça.

Origem do nome: Salas ou Salvas?

Ao longo dos anos, os historiadores têm-se debatido com a questão do nome correto da santa de Sines. O mais recente texto publicado sobre a sua ermida ("A Ermida de Nossa Senhora das Salas", incluído no catálogo "Da Ocidental Praia Lusitana", de José António Falcão e Ricardo E. Pereira) defende a contaminação pela proximidade de uns armazéns de sal ou de uma fábrica de salga (sala) que ali terão existido.

Entre os que defendem a grafia "salas" há também quem remeta para uma derivação de "salir", termo utilizado no sentido de "morrer". Nossa Senhora das Salas será, então, outro nome para a Nossa Senhora dos Defuntos.

O termo "salvas" tende a substituir "salas" a partir do século XVIII. Não há nenhuma fonte documental que forneça as razões da mudança. Pode, no entanto, ser uma homenagem às mulheres "salvas" da tempestade da lenda (Dona Vetaça, sua mãe e irmãs).

Pode ainda designar as salvas com que Vasco da Gama saudava a "senhora de Sines" de cada vez que passava por este troço de costa.

Lendas de S. Torpes

Salvio Torpes foi um valido de Nero, convertido por São Paulo ao Cristianismo e martirizado. Foi flagelado e decapitado pelos seus pares. O corpo foi metido numa jangada e lançado ao rio Arno, em Pisa, com um galo e um cão.

A lenda siniense diz que o corpo lançado ao Arno atravessou meio Mediterrâneo e parte do Atlântico para vir parar a Sines, à costa da Junqueira-Provença, no ano de 67.

A lenda tem três versões: 1) a cabeça deu à praia portuguesa e o corpo à praia francesa de Saint Tropez, na Provença – a relação com os topónimos portugueses é evidente; 2) o inverso; 3) a Junqueira recebeu o corpo todo.

Consta que a cabeça do santo está atualmente no mosteiro dos frades mínimos de São Francisco de Paulo, em Itália.

A interveniente feminina da lenda é Celarina (ou Celerina, ou Catarina), uma mãe de família romana, viúva de um governador. Quando o marido morre, retira-se de Évora para Sines. Um anjo avisa-a em sonhos para ir receber o corpo do mártir à praia. Encontra-o na jangada de junco, velado pelo cão e pelo galo.

A parte com interesse histórico da lenda começa aqui. Sobre um corpo santo ou não, terá sido erguido em Sines um dos primeiros templos cristãos da Europa?

Celarina sepulta o cadáver junto da ribeira da Junqueira. Informado por ela, São Manços, bispo de Évora, manda erigir uma basílica no local [Arnaldo Soledade].

Vários autores medievais e modernos referem a existência e falam da importância do templo (Gerfou, Santo Andou, Usuardo, etc.). Alguns descrevem, inclusivamente, as suas qualidades arquitetónicas e artísticas. Muitos colocam-no na posição de primeira igreja cristã europeia (em competição com uma igreja em Saragoça e outra em Avinhão).

Vítor Torres Mendonça, n'"A Jangada de São Torpes", acha pouco crível que o templo tenha existido no local indicado.

José Leite de Vasconcelos acredita que se tomou pelo templo o dólmen da Junqueira.

A ter existido, são apontados dois agentes possíveis para o desaparecimento da igreja: os Bárbaros e os Mouros.

No final do século XVI, o Papa Sisto V ordena ao arcebispo de Évora que se certifique da existência das ossadas do mártir São Torpes na Junqueira-Provença. É descoberto um túmulo de mármore com um esqueleto humano, mas sem cabeça. Uma lápide certifica a autenticidade dos ossos (mais informações na página sobre o Sítio Arqueológico de S. Torpes).

As mesmas escavações descobrem um crânio – os trasladores afirmam ser de Celarina.

Um século depois, os ossos são removidos para a Igreja Matriz, de onde acabam por perder-se sem deixar vestígios.

Uma ermida erguida a Celarina na ponta leste de Sines, à beira-mar, ainda está de pé no século XVIII. Mas já não no nosso. Em 1969, o historiador Arnaldo Soledade identifica algumas pedras na casa de um particular.

A outra lenda de São Torpes

O lugar de São Torpes tem outra lenda. Onde agora existem dunas, houve uma aldeia que, certo ano, uma chuvada de areia soterrou; oito dias depois da tempestade, um galo ainda cantava debaixo da terra.

Lenda da Cabeça da Cabra

Certa noite, um lavrador da Cabeça da Cabra, lugar do concelho de Sines onde existe uma pedra em forma de cabeça de cabra, sonhou que havia de encontrar de fortuna em Lisboa.

Levou a sério o aviso e fez-se ao caminho.

A dureza da viagem pôs-lhe o ânimo à prova. Sozinho em Lisboa e sem sinal do tesouro, o lavrador começou a sentir-se arrependido de tanto trabalho para fruto tão incerto.

Cansado pelo movimento do Terreiro do Paço parou e puxou do farnel.

Atraído pelo exotismo da figura ou pelo cheiro da chouriça, um soldado meteu conversa com ele.

Já desiludido, o lavrador confessou-lhe o motivo da viagem.

O magala respondeu, com desdém:

"Se fosse a dar confiança aos sonhos, como vossemecê, também andava aí pelo mundo à procura de fortuna. Uma noite, a dormir, vi um farto tesouro num lugarejo qualquer com uma pedra em forma de cabeça de cabra. Mas não sou louco para andar atrás de visões."

Ouvindo isto, o lavrador ganhou asas e voltou à Cabeça da Cabra.

Mais rico ou com mais juízo, não se voltou a ouvir falar dele.

Moral da lenda: não há maior riqueza do que a nossa terra.

Lenda do Rio da Moura

A sul de Sines, junto do mar, existiu uma nascente de água chamada Rio da Moura. Serviu de lavadouro público até meados deste século.

A lenda é simples: era uma vez uma moura que se apaixona por um príncipe cristão. O pai, ao saber do seu amor, mata-a, numa noite de São João. Na meia-noite do dia 23 de junho, a moura aparecia naquela nascente penteando os seus cabelos e chorando pelo desgosto de amor.